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Kardec e a codificação PDF Imprimir E-mail
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Qui, 25 de Outubro de 2007 16:50

Apesar do esbanjamento e da corrupção da corte, Paris sempre foi a capital européia mais atrativa para os intelectuais do continente. Junto com a Alemanha, sua maior rival, a França dirigia os rumos do intelecto humano. Com o Iluminismo, sua capital passou a ser conhecida como a “cidade luz”, pois o homem era incentivado a ser independente, a pensar com a própria cabeça depois de tanto tempo à mercê dos ditames do clero e da aristocracia. “Todos os homens são iguais”, era o slogan do Iluminismo, que nasceu e teve suas maiores conseqüências em solo francês.

Embora tenha sido, na verdade, um retumbante movimento da burguesia, com seus lamentáveis e inevitáveis excessos, a Revolução Francesa teve o mérito de desmistificar a pseudo-superioridade das classes privilegiadas (a corrupta aristocracia e o hipócrita clero católico), levantando as bandeiras contagiantes da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” e da “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”. Evidentemente que a efervescência do período desembocou em um paradoxo, com o surgimento do império napoleônico, mas os frutos intelectuais da Revolução permitiram limpar a Europa do velho ranço aristocrático, forçando a melhoria dos direitos sociais em todas as nações do ocidente e fortificando o papel do Direito mais do que nunca.

Foi em meio a esse clima de mudanças e reconstrução de um novo mundo, quando vingava o perfume primaveril do romantismo por toda a parte, que, em 03 de outubro de 1804, na cidade de Lyon, nascia Hippolite Léon Denizard Rivail, que mais tarde adotaria o pseudônimo pelo qual ficaria conhecido: Allan Kardec. Ele era filho de um juiz, Jean Baptiste-Antoine Rivail, e de Jeanne Duhamel.

Pestalozzi, o mestre

Conta-se que o pai o iniciou com todo cuidado nas primeiras letras e o incentivou à leitura dos clássicos já em tenra idade. Rivail sempre se mostrou muito interessado em ciências e línguas.

Após completar os primeiros estudos em Lyon, partiu para a Suíça, a fim de completar seus estudos secundários na escola do célebre professor Pestalozzi, sediada na cidade de Yverdon. Bem cedo, o jovem de Lyon chamou a atenção de seu mestre, que o colocou como seu auxiliar nos trabalhos acadêmicos que exercia, tendo substituído Pestalozzi na direção da escola algumas vezes, enquanto este empreendia alguma viagem para divulgar sua metodologia de ensino ou era convidado para criar, em outras localidades, uma instituição nos moldes de Yverdon. Também exercia com prazer o papel de professor, ensinando aos seus colegas as lições que aprendera. Apesar de tão responsável, ele era visto como um jovem amável, espirituoso e muito disciplinado. Não há registros de que tenha sido mal quisto em qualquer fase de seu período estudantil.

Rivail se bacharelou em Letras e Ciências, falando vários idiomas fluentemente. Após ser dispensado do serviço militar, resolveu fundar, em Paris, uma escola nos moldes de Yverdon, que foi chamada de Liceu Polimático. Ele estava empenhado no aperfeiçoamento pedagógico da educação francesa e, por isso, escreveu vários livros sobre o assunto, tendo sido premiado por seu trabalho pela Academia Real de Arras, em 1831. Por esta mesma época, casou-se com a professora Amélie Gabrielle Boudet.

Quando tudo parecia ir bem, o sócio de Rivail, que era seu tio, levou o Liceu à ruína por dissipar vastas somas financeiras no jogo e nada mais lhe restou a não ser pedir a liquidação do instituto ao qual se dedicou com tanto amor. Com o dinheiro resultante da partilha, ele sofreu um outro imprevisto: após aplicá-lo na casa comercial de um de seus amigos, este logo abriu falência por realizar maus negócios. Dessa forma, Rivail se encontrava na constrangedora situação de nada mais possuir.

Os livros didáticos

Para sobreviver, ele se lançou freneticamente à redação de livros didáticos e ao trabalho como contador de três firmas comerciais, o que lhe possibilitou, após o susto e o desespero iniciais, recuperar parte de seu antigo padrão de vida. Chegou a organizar, também, cursos de Física, Química, Astronomia e Anatomia Comparada, bastante populares entre os jovens da época. Depois de algum tempo, ele já tinha o necessário para viver com um certo conforto e se dedicar novamente à educação.

Quase paralelamente a estes acontecimentos na vida de Rivail, um conjunto de fenômenos nos Estados Unidos deu início ao moderno Espiritismo (termo cunhado por Kardec em 1857 para distinguir este movimento de outras escolas espiritualistas). Trata-se dos fenômenos ocorridos em 1848 na pequena localidade de Hydesville, mais precisamente na casa da família Fox, que era metodista e, portanto, longe de ter qualquer queda ou interesse por fatos que hoje poderíamos chamar de “paranormais”. As fortes pancadas, violentamente ouvidas no quarto das irmãs Katherine e Margaret e que se fizeram freqüentes por várias semanas, levaram a primeira, então com 9 anos de idade, a desafiar o “batedor” para reproduzir as batidas que ela mesma daria. A prontidão das respostas acabaria por marcar o início desse tipo de comunicação entre vivos e mortos.

Nesta época, em Paris, aconteciam com freqüência os fenômenos das “mesas falantes” ou “mesas girantes”, que consistiam em se fazer perguntas em torno de uma mesa ou outro móvel qualquer, que as respondiam através de pancadas. Isso era visto apenas como uma sutil e inexplicável diversão de salão, quando não era encarada como uma brincadeira ou embuste espirituoso. Porém, havia quem levasse a sério tais coisas, pois, muitas vezes, as mesinhas davam respostas corretas sem que ninguém conseguisse provar ou descobrir quem ou o que as fazia responderem as questões. Convém notar que essa “moda” das mesinhas que giravam parecia ocorrer em todos os lugares e em vários países, em um “boom” que dificilmente pode ser creditado ao acaso.

As mesas girantes

Hippolite Rivail ouviu falar pela primeira vez sobre tais fenômenos em 1854, entretanto, sua primeira atitude diante deles foi a de ceticismo. “Eu acreditarei quando vir, quando conseguirem me provar que uma mesa dispõe de cérebro e nervos e que pode se tornar sonâmbula. Até que isso se dê, permitam-me não enxergar nisso mais do que um conto para provocar o sono”, afirmou.

Por insistência dos amigos, Rivail presenciou algumas manifestações físicas das mesinhas. Depois da estranheza e descrença inicial, ele começou a cogitar seriamente a validade de tais fenômenos. “De repente, encontrava-me no meio de um fato esdrúxulo, contrário às leis da natureza à primeira vista, ocorrendo na presença de pessoas honradas e dignas de fé. Mas a idéia de uma mesa falante ainda não cabia em minha mente”, explicou, completando: “Pela primeira vez, pude testemunhar o fenômeno das mesas que giravam e pulavam em tais condições que dificilmente poderia se acreditar serem frutos de embuste ou fraude”. Rivail disse que suas idéias estavam longe de terem sofrido uma modificação, mas que deveria haver uma explicação em tudo aquilo que se sucedia diante dele.

Em 1855, Hippolite Rivail testemunhou pela primeira vez o fenômeno das mesas girantes. Depois disso, passou a observar estes fatos, pesquisando-os cuidadosamente. Graças ao seu espírito de investigação, que sempre lhe foi peculiar, ele resistiu a elaborar qualquer teoria preconcebida. Queria, a todo custo, descobrir as causas. Como disse Henri Sausse no livro Allan Kardec, “sua razão repele as revelações, somente aceita observações objetivas e controláveis”. Ainda segundo o autor, “vários amigos que acompanhavam há cinco anos o estudo dos fenômenos colocaram à sua disposição mais de cinqüenta cadernos contendo as comunicações feitas pelos espíritos. O estudo desses cadernos constituiu, para ele, o trabalho mais profundo e decisivo. Foi por esse estudo que ele se convenceu da existência do mundo invisível e dos espíritos”.

Ele utilizava o material dos cadernos, com as respostas dadas pelos supostos espíritos, para refazer as mesmas perguntas para outros médiuns, de preferência desconhecidos dos primeiros. Com base nas novas respostas, Rivail comparava o conteúdo de ambas e ficava perplexo com as freqüentes similaridades. Ele reformulava as questões e pedia a ajuda de amigos para fazê-las a outros médiuns, em outras localidades. Recebia as respostas e as compilava, organizando-as por tópicos e assuntos.

A mediunidade

Como podia pessoas que nunca se viram darem as mesmas respostas para as mesmas perguntas, que, freqüentemente, possuiam um grande peso filosófico e uma amplidão de conhecimentos que escapavam à formação ou aos conhecimentos normais delas? A única resposta lógica seria a de que agentes inteligentes responderiam por intermédio de certas pessoas com uma sensibilidade psíquica especial: os médiuns. Além do mais, Rivail notou que poderia existir uma extraordinária discrepância entre o desenvolvimento moral e intelectual de um médium e as comunicações obtidas em estado de transe, chamadas, na época, de “estado sonambúlico” ou, algumas vezes, de “mesmerização”, por causa do pioneiro da hipnose, Franz Anton Mesmer.

Sendo assim, a faculdade de se comunicar com os agentes inteligentes invisíveis independe do grau de desenvolvimento espiritual do médium, tendo aqueles moralmente medíocres ou até mesmo perversos e aqueles de grande desenvolvimento moral. Uns e outros podem receber mensagens de cunho elevado ou banal. Por estarem em uma dimensão diferente da nossa, estes agentes inteligentes invisíveis teriam de vivenciar uma realidade própria ao estado vibratório de sua dimensão, o que explicaria algumas características das repostas dadas. Isso abriria um imenso leque de cogitações e explicações extraordinárias, mas Rivail não se deixou levar pelo entusiasmo.

Ele percebeu claramente, desde o início, que muitas das respostas obtidas por meio dos médiuns eram tolas e pueris, enquanto outras tinham muito a ver com os conhecimentos ou as crenças do próprio médium, embora ele, durante o transe, comumente não tivesse consciência do que dizia ou escrevia. Assim, Rivail chegou à conclusão de que, se são agentes inteligentes não físicos que dão as respostas, nem por isso eles parecem ser muito diferentes dos homens vivos, pois elas são parecidas com as que qualquer homem daria, inclusive dentro do nível de instrução a que tenham chegado, pelo fato de haver respostas muito bem elaboradas junto com muitas outras bastante fúteis. Concluiu, ainda, que, algumas vezes, as respostas são dadas de forma não-consciente pelo próprio médium, ou seja, seria o agente inteligente do próprio médium que responderia certas coisas em certas ocasiões. No entanto, estas respostas não são destituídas de valor, podendo apresentar um extraordinário grau de maturidade, mesmo que sejam estranhas ao pensamento normal do médium quando em estado de vigília ou de consciência desperta.

Desta forma, Hippolite Rivail reconheceu clara e lucidamente que as entidades, por serem seres extra-corpóreos, não eram necessariamente mais sábias do que os homens encarnados. Elas mesmas diziam que nada mais eram do que os espíritos dos homens que já morreram e, por isso mesmo, continuavam tão humanas e cheias de falhas quanto antes. Mais ainda: Rivail se antecipou ao célebre Sigmund Freud (1856-1939) em mais de 43 anos ao reconhecer uma ação inconsciente pessoal agindo sobre a manifestação mediúnica algumas vezes. Assim, podemos nos perguntar se ele não teria sido, indiretamente, um precursor da cética psicanálise.

O Livro dos Espíritos

Com o estudo meticuloso das respostas dadas pelos espíritos por meio de diversos médiuns e em vários países, Hippolite Rivail teve material suficiente para compor um livro. Ele fez uma lúcida introdução sobre seu trabalho no prefácio da obra que fez nascer o Espiritismo: O Livro dos Espíritos. Na capa do livro, lançado na cidade de Paris em 18 de abril de 1857, está o nome do autor, ou melhor, seu pseudônimo: Allan Kardec. Rivail preferiu adotar este nome para diferenciar sua nova obra dos trabalhos anteriores, voltados à educação e à pedagogia.

Mas por que Allan Kardec? Bem, certa ocasião, depois repetida inúmeras vezes, um espírito que se denominava como “Z” havia dito para Hippolite Rivail que eles tinham sido amigos em uma existência anterior, vivida entre os druidas na Gália, e que o nome deste era Allan Kardec. Era incrível, porém, mais uma vez vinha à tona na Europa uma antiga concepção fluente no ocidente desde Pitágoras, Sócrates, Platão, Plotino etc, bem como entre os povos originários da Bretanha, como os celtas, e os chamados “movimentos heréticos”, como os cátaros e os templários: a idéia da reencarnação.

Com uma profundidade filosófica e psicológica desconcertantes, O Livro dos Espíritos possui passagens e reflexões que vão muito além do nível de conhecimento ordinário de sua época de publicação, inclusive no que tange aos aspectos científicos da obra. Citemos, só de passagem, a noção de evolução das espécies vivas dada pelos espíritos e comentada por Kardec, publicada um ano antes de A Origem das Espécies, famoso livro de Charles Darwin, ou ainda a identidade entre matéria e energia (chamada por Kardec de “fluido universal”), que se diferenciam entre si apenas por um estado de condensação, muito antes do grande físico Albert Einstein. De igual modo, a percepção de consciência como sendo diferentes manifestações de maturação psíquica lembra e muito as atuais abordagens da psicologia, principalmente a transpessoal. Há momentos em que a apresentação da doutrina em O Livro dos Espíritos não fica devendo nada às melhores teorias de personalidade da psicologia moderna.

A descrição kardequiana do Fluído Cósmico Universal lembra o conceito de “orgônio” ou “orgon” dado pelo psicanalista Wilhelm Reich, pai da bioenergética. Da mesma maneira, os fundamentos e causas do processo da reencarnação são idênticos aos postulados por alguns psicoterapeutas que, em boa parte, não conhecem Allan Kardec e, por meio do desenvolvimento de pesquisas diversas a partir do atendimento clínico de pacientes, chegaram à técnica de TVP (Terapia de Vidas Passadas). Sem contar que a filosofia de vida que a doutrina estimula a adotar é, em muitos pontos, similar às condições propícias ao desenvolvimento da auto-atualização, lema de psicólogos humanistas como Abraham Maslow e Carl Ransom Rogers, por exemplo. A noção de animismo aponta para o conceito de inconsciente que teve em Freud seu mais sério teórico, enquanto que a de evolução espiritual lembra o processo de individualização postulado por Carl Gustav Jung.

O mais assombroso de tudo é que Kardec logo reconheceria que seu estudo sobre a comunicação dos espíritos, que ele chamou de Espiritismo, não trazia nada de realmente novo a não ser o fato destes fenômenos serem vistos e entendidos sob a ótica moderna, científica. “Constituindo uma lei da natureza, os fenômenos estudados pelo Espiritismo hão de ter existido desde a origem dos tempos e sempre nos esforçamos por demonstrar que dele se descobrem sinais na antigüidade mais remota. Pitágoras, como se sabe, não foi o autor da metempsicose, ou seja, da transmigração da alma pela reencarnação. Ele colheu isso dos filósofos indianos e egípcios, que a tinham desde tempos imemoriais”, afirmou Kardec em O Livro dos Espíritos, completando: “O que não padece dúvidas é que uma idéia não atravessa séculos e séculos, nem consegue se impor às inteligências de escol, se não contiver algo de sério”.

A essência do evangelho

É por isso, também, que a introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo, de 1864, livro de cunho filosófico que objetivava esclarecer a posição da doutrina frente à mensagem do Cristo, traz um estudo histórico que culmina em um resumo do posicionamento de Sócrates e Platão como precursores dos mais elevados ideais cristãos e, em suas filosofias, de vários tópicos do Espiritismo, como fica bem evidenciado no diálogo “Fédon”, do segundo. Já em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec tece comentários a respeito da ancestralidade das idéias básicas do Espiritismo (capítulo V) e a universalidade dos fenômenos ditos espíritas.

Os fenômenos que caracterizam o Espiritismo, especialmente o da comunicação entre vivos e “mortos”, são mencionados e reconhecidos como existentes em todas as épocas da humanidade, qualquer que seja a cultura considerada. Um dos mais antigos e claros registros a este respeito dentro de nossa tradição judaico-cristã é a referência bíblica na qual Saul visita a pitonisa (médium) de En-Dor, que lhe possibilitou a comunicação com o espírito do profeta Samuel.

A idéia da reencarnação, por exemplo, é tão antiga e universal quanto a própria humanidade. É a base de diversas tradições filosóficas e religiosas do oriente, como o budismo e o hinduísmo, bem como das religiões pré-cristãs da Europa, como o druidismo, e do posicionamento de alguns pais da Igreja antes do Concílio de Constantinopla, em 533, quando a doutrina da reencarnação foi abolida por motivos políticos. Houve ainda a presença de alguns movimentos fortemente contestatórios da ação da Igreja de Roma, como os cátaros, embora os conhecimentos antropológicos, históricos e sociológicos de seu tempo não permitissem a Kardec ir muito além na análise destas tradições, filosofias e ocorrências históricas.

Além do mais, diferentemente de outras escolas espiritualistas, ele fez absoluta questão de expor seus estudos de forma racional, sem cair nas armadilhas do discurso místico ordinário, levado mais pela emoção e fantasia do que pela razão, a partir de fatos, fenômenos e percepções reais. Procurou analisar com o máximo zelo a descrição dos fenômenos, a partir de sólidos referenciais lógicos. Seu trabalho seria trazer ao nível intelectual moderno alguns fenômenos que sempre acompanharam o homem em sua história e que foram negligenciados pela ciência mecanicista moderna, principalmente a partir do legado de Descartes e Newton, apesar de ambos terem sido pessoas espiritualizadas, principalmente o segundo, que foi o primeiro grande cientista da era moderna e o último grande mago dos tempos alquímicos.

Revista Espírita

Em 01 de janeiro de 1858, Allan Kardec publicou o primeiro número da Revista Espírita, que serviu como uma poderosa auxiliar para os trabalhos ulteriores e para a divulgação da doutrina espírita na Europa e na América. Segundo Henri Sausse, “em menos de um ano, a Revista Espírita estava espalhada por todos os continentes do globo”. O número de assinantes aumentou de tal maneira, contou Sausse, que Allan Kardec reimprimiu duas vezes as coleções de 1858, 1859 e 1860 a pedido deles. Dentre os mais célebres admiradores, amigos e estudiosos tanto de Kardec como do Espiritismo, podemos destacar o famoso astrônomo francês Camille Flammarion, o filósofo H. Bergson, o psicólogo e filósofo William James, o físico William Crookes, o biólogo Alfred Russel Wallace, o físico Oliver Lodge e o escritor Arthur Conan Doyle, entre outros.

Podemos expor a importância do trabalho de Kardec através das palavras do pai da moderna parapsicologia, Charles Richet: “Allan Kardec foi o homem que, no período de 1857 a 1871, exerceu a mais penetrante influência e que traçou o sulco mais profundo na ciência metapsíquica”. Da mesma forma, vários outros estudiosos confirmaram a importância de Allan Kardec no desenvolvimento dos estudos psíquicos por todo o mundo. Camille Flammarion, um dos maiores astrônomos da história, sempre lhe foi grato pelos estudos que eram correntes na Sociedade de Estudos Espíritas e foi ele quem fez o discurso fúnebre de Kardec. A lista poderia se alongar com o nome de vários outros célebres pesquisadores, como Ernesto Bozzano, César Lombroso etc.

Os estudos espíritas

No dia 01 de abril de 1858, Allan Kardec fundou a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, que tinha como objetivo “o estudo de todos os fenômenos relativos às manifestações espíritas e suas aplicações às ciências morais, físicas, históricas e psicológicas”. Ele não tinha a intenção de fundar uma religião, como ocorreu posteriormente, a partir de seu legado. Para Kardec, “a ciência espírita compreende duas partes: uma experimental, relativa às manifestações em geral, e outra filosófica, relativa às manifestações inteligentes e suas conseqüências”.

Em outubro de 1861, ocorreu um triste e patético acontecimento. Trata-se do famoso auto-de-fé promovido pela Igreja Católica na cidade espanhola de Barcelona, quando cerca de 300 publicações espíritas foram queimadas em praça pública. As obras, encomendadas a Allan Kardec pelo livreiro Maurice Lachâtre, foram enviadas de forma comum, nas condições alfandegárias normais e tendo as taxas de importação pagas pelo destinatário às autoridades espanholas. No entanto, a entrega das encomendas não foi realizada, pois foram confiscadas pelo bispo de Barcelona com a seguinte justificativa: “A Igreja Católica é universal e estes livros são contrários à fé católica, não podendo o governo permitir que passem a perverter a moral e a religião de outros países”.

Talvez com saudades dos áureos tempos de absoluto domínio das consciências humanas à base de ferro e fogo, o douto bispo, acreditando pertencer à uma seleta instituição de únicos representantes da vontade de Deus na Terra, fez reacender as fogueiras que atingiram tantas vítimas inocentes em séculos anteriores. Através de um carrasco, as obras foram queimadas, certamente, no lugar das pessoas que deveriam estar ali: os espíritas franceses em geral e um homem em particular: Allan Kardec. A pantomima seguiu em tudo as regras de uma execução inquisitorial.

Graças a esta demonstração de brutalidade por parte da religião de Roma, o Espiritismo acabou tendo uma grande repercussão em toda a Espanha, granjeando inúmeros adeptos. De certa forma, o ato alçou a doutrina espírita ao mesmo patamar de outros mártires da liberdade de espírito, incluindo Jacques DeMolay, Galileu Galilei, Giordano Bruno e aquela que, com toda a infalibilidade papal, foi condenada como bruxa à fogueira, para, quatro séculos depois, ser elevada à categoria de santa: Joana D’Arc.

Uma religião para o clero

Na Revista Espírita de 1864, Allan Kardec fez uma observação a respeito da divulgação do Espiritismo como uma religião pelos doutores da lei da era moderna. Disse ele: “Quem primeiro proclamou que o Espiritismo era uma religião nova, com seu culto e seus sacerdotes, senão o clero? Onde se viu, até o presente, o culto e os sacerdotes do Espiritismo? Se algum dia ele se tornar uma religião, o clero é quem o terá provocado”.

Kardec passou o resto de sua vida na missão de divulgar os resultados de seus estudos e os de outros colegas, empreendendo inúmeras viagens pela França e pela Bélgica entre os anos de 1859 e 1868 e escrevendo várias brochuras e pequenos artigos para a propagação do Espiritismo. Produziu ainda muitos outros livros, entre eles O Livro dos Médiuns (1861), O Céu e o Inferno (1865) e A Gênese (1868).

Sempre lúcido e lógico, Kardec soube muito bem como enfrentar a oposição e a difamação de inimigos gratuitos com dignidade e nobreza, reconhecendo quando algum argumento oposto tinha valor sério e sincero. Manteve-se à frente da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, além de escrever outros livros e artigos para a Revista Espírita, até os seus últimos dias de vida. Allan Kardec desencarnou em 31 de março de 1869, aos 65 anos de idade, vítima de um aneurisma cerebral. Regressava ao plano espiritual aquele que abriu as mentes dos homens para esse mundo além da morte.

 

Artigo publicado na Revista Caminho Espiritual, edição 03.
Ao reproduzir o texto, favor citar o autor e a fonte.
 

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